Professor da universidade de Oxford alerta que dependência da IA pode afastar jovens na leitura da Bíblia

Matemático e apologista cristão afirmou, durante a Conferência Sing! 2026, nos Estados Unidos, que a inteligência artificial pode ser útil para áreas como medicina e tradução bíblica, mas se tornar “uma mestra muito perigosa” quando substitui leitura, oração e meditação nas Escrituras.

O matemático, escritor e apologista cristão John Lennox, professor emérito da Universidade de Oxford, alertou que o uso indiscriminado da inteligência artificial pode contribuir para o afastamento de uma geração da leitura da Bíblia. Para ele, ferramentas desenvolvidas para auxiliar pessoas podem se tornar “uma mestra muito perigosa” quando passam a ocupar o lugar da reflexão, do estudo e da meditação pessoal nas Escrituras.

Lennox abordou o assunto em conversa com o também apologista e professor Wes Huff, durante a 10ª edição da Conferência Sing, realizada de 7 a 9 de setembro, em Nashville, nos Estados Unidos. Com o tema “Symphony of Scripture” ou “Sinfonia das Escrituras”, o encontro reuniu líderes e estudiosos para refletir sobre a influência da Bíblia no culto, na teologia, na cultura e nas artes, além de marcar os 500 anos do Novo Testamento em inglês traduzido por William Tyndale.

A conversa entre Lennox e Huff foi anunciada pela organização como um debate sobre “inteligência bíblica versus inteligência artificial e o futuro”. O painel tratou dos avanços tecnológicos, das oportunidades abertas pela IA e dos cuidados necessários para que a tecnologia não substitua práticas fundamentais da fé cristã.

Risco de uma fome espiritual

Segundo Lennox, a inteligência artificial pode trazer benefícios significativos, incluindo aplicações na medicina e possibilidades de apoio à tradução da Bíblia. Entretanto, ele demonstrou preocupação com a forma como modelos de linguagem e ferramentas de resposta instantânea podem alterar os hábitos de leitura, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.

“Um dos efeitos negativos desses grandes modelos de linguagem é o rápido declínio da leitura, particularmente entre os jovens”, afirmou. Ele observou que muitos jovens podem questionar por que deveriam ler, caso uma plataforma de IA seja capaz de entregar respostas imediatas.

Para o professor, a consequência de abandonar a leitura pode ser profunda para a vida espiritual. “Se negligenciarmos a leitura e o incentivo à leitura em crianças e jovens, isso os deixará em um estado de fome espiritual. Se a leitura diminuir, a leitura das Escrituras também diminuirá e, portanto, os cristãos não prosperarão”, alertou.

Lennox reforçou que a Bíblia é essencial para a formação e a defesa da fé. Na avaliação dele, uma igreja que deixa de ler e meditar nas Escrituras de forma orante corre o risco de se tornar espiritualmente vulnerável, mesmo tendo amplo acesso a conteúdo religioso digital.

“Se os cristãos não lerem e meditarem nas Escrituras em oração, então, é claro, tornaremos a Igreja totalmente indefesa”, declarou. Ao lembrar o esforço histórico para tornar a Bíblia acessível ao público, ele afirmou que seria uma tragédia se os cristãos, tendo tantas traduções e recursos disponíveis, passassem a negligenciar a Palavra por causa da IA.

IA como intermediária

Wes Huff também expressou preocupação com a possibilidade de a inteligência artificial se tornar uma nova intermediária entre os leitores e a Bíblia. Ele comparou esse cenário à luta da Reforma Protestante para colocar as Escrituras nas mãos das pessoas, sem que o acesso ao texto ficasse restrito a poucos.

Hoje, embora existam inúmeras traduções e ferramentas bíblicas acessíveis, Huff avalia que muitos cristãos podem ser tentados a depender de resumos, explicações e respostas produzidas por IA, em vez de ler o texto bíblico, compará-lo, refletir sobre ele e meditar em oração.

“Estamos confundindo os mecanismos que nos fornecem informações com a meditação, a leitura e o estudo aprofundado das Escrituras”, afirmou Huff durante a conversa.

O alerta não condena o uso de recursos tecnológicos para pesquisar contexto histórico, organizar estudos, comparar traduções ou apoiar o aprendizado. O ponto central levantado pelos palestrantes é que uma resposta gerada em segundos não equivale ao processo pessoal e comunitário de conhecer as Escrituras.

A diferença, segundo eles, está entre receber informação sobre a Bíblia e permitir que a Bíblia seja lida, compreendida e aplicada à vida. Nesse sentido, uma ferramenta pode ser útil para auxiliar uma busca, mas não deve se tornar a fonte final de autoridade espiritual ou substituir o contato direto com o texto bíblico.

Tecnologia, ética e imagem de Deus

Lennox defendeu uma abordagem equilibrada. Para ele, a IA não deve ser tratada como algo inteiramente bom ou inteiramente mau. O matemático comparou a tecnologia a uma faca afiada: ela pode ser usada, por exemplo, em uma cirurgia para salvar uma vida, mas também pode causar danos quando usada de maneira errada.

Entre os usos positivos, ele citou a medicina e a tradução das Escrituras, áreas em que a tecnologia pode colaborar com profissionais e ampliar o acesso a informações. Ao mesmo tempo, afirmou que cristãos sérios precisam estar envolvidos nas pesquisas e discussões sobre IA para aplicar princípios bíblicos e éticos ao desenvolvimento dessas ferramentas.

O professor também destacou que a IA não possui consciência, responsabilidade moral, sofrimento, relações pessoais ou dignidade inerente. Embora sistemas possam simular linguagem, emoção e até empatia, isso não os torna pessoas ou portadores da imagem de Deus. Reflexões recentes no meio cristão têm enfatizado a mesma distinção: máquinas podem refletir padrões humanos, mas imitar características humanas não é o mesmo que possuir pessoalidade ou imagem de Deus.

Para Lennox, o perigo está em tratar a inteligência artificial como se ela tivesse a mesma natureza de um ser humano. “A inteligência artificial não foi feita à imagem de Deus. O perigo reside no fato de ter sido feita à imagem humana, criada por humanos que têm falhas de pensamento”, declarou.

Durante a conferência, Lennox e Huff também abordaram as questões existenciais que têm mobilizado as novas gerações: identidade, propósito, significado, justiça e esperança. Lennox observou que, além dos debates sobre ciência e fé, jovens têm apresentado cada vez mais perguntas relacionadas ao sentido da vida.

Na visão do apologista, a fé cristã oferece uma resposta ao afirmar a dignidade de cada pessoa como criação de Deus. Em vez de tratar indivíduos como dados, consumidores ou peças substituíveis de um sistema tecnológico, a mensagem bíblica reconhece valor, responsabilidade moral e propósito em cada ser humano.

Ao falar sobre como os cristãos podem dialogar com uma sociedade marcada pelo ceticismo e pela distração digital, Lennox aconselhou os fiéis a ouvirem com atenção. “Interaja com as pessoas fazendo perguntas e ouvindo-as, descobrindo de onde elas vêm e quais são suas reais preocupações. Seja honesto se você não souber as respostas. Simplesmente diga: “Não sei, mas vou pesquisar”, disse.

Para o professor, o debate não deve se restringir ao futuro da inteligência artificial. Ele afirmou que os cristãos precisam manter a atenção na esperança central da fé: a promessa do retorno de Jesus Cristo. Lennox alertou ainda que sistemas tecnológicos podem se tornar ídolos modernos quando ocupam a mente, moldam prioridades e passam a controlar a vida das pessoas.

“A promessa maravilhosa é que Jesus voltará. Essa é a verdadeira esperança. Portanto, pessoal, não nos envergonhemos disso”, concluiu.

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